sexta-feira, 3 de julho de 2009
Cartas para ninguém
Uma tarde numa rede funda, toda a claridade por fora, o barulho do vento forte e pesado, daqueles que só há em cidades de mar. A solidão boa, confortável embora o pensamento ande sempre em você, desejando tua presença nunca presente. Ah tarde gostosa de casa, de lar, de futuro. Ler um pouco de Machado, mergulhar num gosto de passado não vivido, porém muito bem sentido, e a tarde avançando no fundo da rede gostosa. Uma pausa para fazer bruacas e comê-las acompanhadas com café e Nara Leão. Hoje, amor flutuante, tua falta não me importa, até a saudade resolveu ser boa companheira. Estou feliz, bem com minha tarde lenta de julho, a Nara canta muito bem, sua voz é de encher o peito até que transborde, e é assim que estou agora, transbordando de algo bom, vai ver é felicidade. Felicidade daquelas que vem de vez em quando e a gente nem sabe porquê, só sente e olha pro céu.
(...)
Penso. O que será de mim? De meu peito sonhador? Talvez a vida me caiba, mas o mundo dos homens não. Já o mundo das paisagens, das coisas belas sim, pois quando as vejo olho bem dentro de mim. Me transformo em tudo que vejo. Não sei quando adquiri esta mania ou quando a percebi. Só sei que a tenho e não a domino, acontece. Sou todas as imagens que conheço. Sou simplesmente paisagem. E qual a função de uma paisagem no mundo? Só existir, estar lá em seu lugar. E é exatamente o que quero hoje, estar em meu lugar de preferência habitado só por mim.
sábado, 9 de maio de 2009
Diálogos - Pela manhã
Ele - Sabia. Mas eu tenho dificuldade pra dormir abraçado à alguém.
Ela - É, eu já percebi. Uma vez eu te abracei enquanto você dormia e você acordou assustado , aí me afastei.
Ele - Uma vez você falou dormindo.
Ela - Eu?!
Ele - Sim, você. Me acordou e começou a falar sem parar, eu não tava entendendo direito o que tava acontecendo, foi engraçado.
Ela - E eu disse o quê?!
Ele - Me perguntou o que ia acontecer, disse umas coisas sem muito sentido e voltou a dormir. Acho que era algo sobre a apresentação da peça que seria no dia seguinte.
Você deve ter ido dormir preocupada com isso.
Ela - Nossa, não me lembro de nada.
Ele - Pois é.
Ela - Nessa última noite enquanto você dormia e roncava bastante por sinal, eu fiquei muito deprimida e chorei até dormir.
Ele - Eu ronco tanto assim? (Eles riem.)
Ela - Não, não era isso. Não só isso (Diz sorrindo meio sem graça.) Ah você não vai entender, são muitas coisas e ... , bom quando acordei hoje de manhã tinha ficado menstruada.
(Ele só a olha sem dizer nada.)
Ela - Quer um pedaço do meu sanduíche de queijo?
Ele - Não, já comi demais.
quarta-feira, 6 de maio de 2009
Diálogos - Pela tarde
Ele- Ué, porquê não?
Ela- Você não me deixa saber.
Ele- Não sabia que eu era tão misterioso assim.
Ela- Você gosta de mim?
Ele- (Depois de um tempo em silêncio) - Gosto.
Ela- Então me beija.
- (Ele a beija)
Ela- Assim não. Assim.
